Avançar para o conteúdo principal

Mudanças de vida...

Tomei uma decisão que irá transformar a minha vida.

Há 16 anos a trabalhar no Controlo de Infeção do IPO, achei que estava na altura de mudar.

No meio de uma conversa onde me lamuriava das dificuldades do dia-a-dia, de bater contra mil e uma paredes para conseguir alguma coisa, de estar farta e cansada de repetir as mesmas coisas durante anos e mesmo assim não obter progressos, além de todo um mundo de outras coisas que não vale a pena enumerar, perguntaram-me:

Porque é que não mudas? Estás ali há tanto tempo!!

E eu fiquei a pensar, porque é que não mudo? 

Tinha uma posição muito priveligiada, sem esforço físico, sem turnos, sem trabalho pesado; mas com muita responsabilidade, muito cansaço mental, remar contra a maré, partir pedra há anos e muita dificuldade em tornar possíveis algumas mudanças em benefício dos profissionais e dos doentes, devido a burocracias e entraves logísticos sem fim.

Passados dois dias estava a pedir transferência de serviço. A minha proposta de transferência foi aceite e possível para o serviço que escolhi, com a possibilidade de não fazer turnos. Esta era uma das minhas principais limitações.

Vou voltar a prestar cuidados a doentes.

Há 16 anos, após o falecimento do meu pai com um cancro do pulmão, pedi transferência do serviço de internamento onde estava para me afastar o mais possível do tratamento aos doentes.

Tinha pavor de lidar novamente com os doentes. Havia um despertar de todo o sofrimento que senti ao acompanhar o meu pai até ao fim da sua vida.

Agora já passou esse medo. Essas recordações e memórias estão mais serenas no meu coração.

Estou muito destreinada e desatualizada da prestação de cuidados, mas sei que vou conseguir. Mais devagar do que há 20 anos, mas aprenderei na mesma.

Vou para um serviço com uma equipa composta por colegas e amigas que adoro e conheço há anos.

Despeço-me de outro serviço com 2 colegas que também adoro e que me apoiam e acarinham todos os dias e que continuarei a ver diariamente, só não estarei em permanência a azucrinar-lhes a cabeça, que era a minha principal função...

Vou sentir falta do contacto com todos os profissionais dos serviços, onde sempre fui bem recebida e sei que continuarei a ser, mas o contacto será muito menor.

Vou deixar o meu cantinho que foi a minha casa durante estes anos e que o tranformei e decorei à minha vontade. Acabaram-se os calendários dos Bombeiros... Hahaha

Foto by Mónica Canhoto: A minha secretária

Mas vou ganhar outras coisas.

O serviço de destino reagiu muito bem à notícia e senti-me muito comovida pelas reações das colegas.

Estou a terminar de organizar e realizar algumas /muitas coisas que tinha agendadas e no dia 26 de outubro visto novamente a farda e a pele de uma enfermeira normal.

Vai correr mesmo bem!


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Sinto falta de um abraço...

Hoje foi talvez o dia mais difícil desde que estamos em estado de emergência com isolamentos, quarentenas e afins! A minha menina fazia 8 anos! Já tínhamos reservado um espaço para lhe fazer a festa, com os convites já feitos, lista de amiguinhos, ía ter pinturas faciais, piscina de bolas, fatos para se mascararem, várias atividades, bolo do Snoopy, etc. Quando percebemos o andar das coisas, ainda antes da escola fechar, percebemos que não iria haver festa. O Coronavírus não ía deixar. Cancelamos. Optamos por deixá-la com a minha mãe, porque tanto eu como o pai temos que continuar a trabalhar e não podíamos arriscar a vir para casa contaminados, estar com ela e ela contagiar a avó. No dia 16 de março de manhã, despeço-me dela à porta da minha mãe com o último abraço, um beijinho meio a medo, dado na cabeça e sigo para o trabalho de coração desfeito. Sem saber quando a poderei voltar a abraçar. Choro todo o caminho e sinto que vou para a guerra. Sinto-me impotente perante um inimigo inv...

Vida depois da morte...

Doar o meu corpo à Ciência!!! Tenho esta ideia há muito tempo, mas só hoje tratei de tudo... Talvez porque hoje se assinala mais um aniversário da morte da minha prima. Tinha 29 anos, acidente de mota e fim!!! Acabou tudo de repente e abalou para sempre as nossas vidas. Um primo do outro lado da família morreria passados 6 meses, do mesmo modo. É claro que ninguém pensa no que se quer que se faça depois da morte, aos vinte e tal anos!!! Nem aos trinta e nem aos quarenta. Mas a Morte é o que todos nós temos como certo. Espero estar a meio da minha vida. Espero morrer velhinha, cheia de rugas, gaiteira e ter desculpa para comer Nestun (ou cerelac) todos os dias, mas ninguém sabe o que nos espera... Lido com a Morte há demasiado tempo. Comecei cedo demais. Aos 22 anos a cuidar de corpos sem vida, ainda quentes, acabados de morrer!  Era demasiado nova... Claro que depois queria era desanuviar e ir dançar uma noite inteira para me esquecer. Não result...

Dias de Mulheres Fenomenais...

Tem sempre presente que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos... Mas o que é mais importante não muda; A tua força e convicção não têm idade. O teu espírito é como qualquer teia de aranha. Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida. Atrás de cada conquista, vem um novo desafio. Enquanto estiveres viva, sente-te viva. Se sentes saudades do que fazias, volta a fazê-lo. Não vivas de fotografias amarelecidas... Continua, quando todos esperam que desistas. Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti. Faz com que em vez de pena, te tenham respeito. Quando não conseguires correr através dos anos, Trota Quando não consigas trotar, caminha. Quando não consigas caminhar, usa uma bengala. Mas nunca te detenhas!!!. Madre Teresa de Calcutá